Como o urubu virou mascote do Flamengo após voo histórico no Maracanã

HISTÓRIA DO FUTEBOL

Antes de ser símbolo de orgulho para milhões de torcedores, o urubu era usado como provocação contra os flamenguistas. Tudo mudou em uma tarde de domingo, em 1º de junho de 1969, quando quatro jovens decidiram transformar uma provocação dos rivais em uma das histórias mais curiosas do futebol brasileiro.

Naquele dia, um urubu foi levado para dentro do Maracanã e solto no gramado antes de um clássico entre Flamengo e Botafogo. O que parecia apenas uma brincadeira de torcedores acabou entrando para a história do clube e ajudou a transformar definitivamente a ave no mascote rubro-negro.

Urubu no gramado do Maracanã durante partida de futebol
O urubu entrou no imaginário rubro-negro após episódios históricos no Maracanã.

Quando chamar flamenguista de urubu era uma ofensa

Hoje, dizer que um torcedor do Flamengo é um “urubu” pode ser motivo de orgulho. Mas nem sempre foi assim.

Durante boa parte da história do futebol carioca, o apelido era utilizado pelos adversários como forma de provocação. Para os rubro-negros, a palavra tinha uma conotação ofensiva e, em determinados contextos, carregava também um componente racista.

Foi justamente essa provocação que alguns torcedores decidiram transformar em símbolo de identidade. A ideia era simples: se os rivais queriam chamar os flamenguistas de urubus, a torcida passaria a assumir o apelido e transformá-lo em motivo de orgulho.

A transformação ganhou força em um dos lugares mais importantes do futebol brasileiro: o Maracanã.

Os quatro torcedores que tiveram a ideia

A história começou com quatro amigos moradores do Leme, na Zona Sul do Rio de Janeiro: Victor Ellery, Romilson Meirelles, Luiz Octávio Vaz e Erick Soledade.

Os jovens tinham entre 18 e 20 anos e queriam preparar uma provocação para o clássico contra o Botafogo. O plano era conseguir um urubu, levá-lo ao estádio e soltá-lo diante de milhares de torcedores.

A primeira tentativa aconteceu na região da Lagoa Rodrigo de Freitas. Como não encontraram nenhum animal, o grupo decidiu procurar em outro lugar.

Eles foram até o antigo lixão do Caju, na Zona Norte do Rio. Na primeira visita, chegaram tarde. No dia seguinte, porém, voltaram ao local e encontraram vários urubus.

Os quatro não conseguiram capturar a ave sozinhos. Foi então que um gari decidiu ajudá-los. Com uma corda, ele conseguiu capturar um dos animais.

Urubu no gramado do Maracanã durante jogo do Flamengo
O urubu no gramado do Maracanã se transformou em uma imagem histórica do Flamengo.

O urubu quase escapou antes de chegar ao Maracanã

A captura não significou o fim da aventura. Pelo contrário.

O animal foi colocado dentro de uma manta e levado no carro dos torcedores. Durante o trajeto, porém, o urubu conseguiu escapar parcialmente e começou a bater as asas dentro do veículo.

O episódio aconteceu enquanto o carro estava parado em um sinal da Avenida Brasil. O animal se movimentava de um lado para o outro, deixando os quatro torcedores desesperados.

Romilson Meirelles contou posteriormente que levou algumas bicadas durante a tentativa de controlar o animal. Depois de muito esforço, eles conseguiram imobilizá-lo novamente.

O urubu passou a noite em um prédio no Leme. Segundo os relatos publicados posteriormente, os jovens chegaram a oferecer comida ao animal, mas ele recusou as opções improvisadas, como macarrão e feijão com arroz.

O voo que mudou a história do Flamengo

No dia do clássico, os torcedores esconderam o animal em uma sacola e conseguiram entrar no Maracanã.

O plano era soltar o urubu no momento certo. Para completar a cena, uma pequena bandeira do Flamengo foi presa às patas da ave com um suporte de bambu.

Quando o animal foi colocado no gramado, aconteceu algo que os torcedores provavelmente não imaginavam que teria tanta repercussão.

O urubu voou sobre a torcida do Botafogo e depois seguiu em direção ao lado onde estavam os flamenguistas. As arquibancadas explodiram em comemoração.

Os torcedores começaram a gritar:

“É urubu! É urubu!”

A ave estava debilitada e não permaneceu muito tempo no ar. Acabou pousando no gramado, mas já havia conseguido o mais importante: conquistar a torcida.

O episódio acabou chamando tanta atenção que praticamente roubou os holofotes de uma das principais novidades daquele jogo: a estreia do atacante argentino Doval, contratado pelo Flamengo junto ao San Lorenzo.

Nelson Rodrigues ajudou a transformar o episódio em história

O impacto daquele momento ultrapassou as arquibancadas.

No dia seguinte ao clássico, o episódio foi registrado pelo jornal O GLOBO. O escritor e cronista Nelson Rodrigues também comentou a história em sua coluna.

A ideia que havia começado como uma provocação de torcedores ganhou uma dimensão muito maior. O urubu passou a ser associado à torcida do Flamengo e começou a substituir o antigo mascote do clube.

Até então, o personagem associado ao Flamengo era o marinheiro Popeye, herança da ligação histórica do clube com o remo.

Outro personagem fundamental nesse processo foi o cartunista Henfil, que ajudou a popularizar uma representação humanizada do urubu.

Estátua de urubu símbolo do Flamengo com bandeira rubro-negra
O urubu se consolidou como um dos maiores símbolos da identidade do Flamengo.

A parte triste: o urubu morreu poucos dias depois

Apesar de a história ter começado como uma grande festa, o destino do animal foi trágico.

O urubu capturado no Caju não resistiu. Depois de ser solto no Maracanã, foi encontrado morto no dia seguinte.

Uma veterinária avaliou o animal e apontou a inanição como causa da morte. O corpo foi encontrado no fosso do estádio após ter sido retirado de um banheiro pelos funcionários responsáveis pela administração do Maracanã.

A notícia foi publicada poucos dias depois do histórico voo. O episódio revelou o lado cruel de uma brincadeira que, naquela época, não tinha a mesma percepção sobre proteção de animais silvestres que existe atualmente.

Hoje, uma situação como aquela seria tratada de maneira completamente diferente, já que a captura e a manutenção de animais silvestres em cativeiro podem configurar infrações ambientais.

Um segundo urubu apareceu no Maracanã

A história, entretanto, não terminou com a morte do primeiro animal.

No domingo seguinte, durante uma partida entre Flamengo e Vasco, outro grupo de torcedores levou um urubu ao Maracanã.

Mais uma vez, a presença da ave provocou uma grande reação nas arquibancadas. O episódio ajudou a consolidar definitivamente a associação entre o animal e o Flamengo.

O que havia começado como uma provocação passou a representar justamente o contrário: identidade, irreverência e orgulho de ser rubro-negro.

Por que o urubu virou símbolo do Flamengo?

A força dessa história está justamente na transformação de um insulto em símbolo.

Os rivais utilizavam o termo para provocar os flamenguistas. A torcida, em vez de rejeitar a palavra, decidiu adotá-la e mudar seu significado.

O voo de 1969 no Maracanã foi o momento que acelerou essa transformação. A repercussão nos jornais, a participação de figuras como Nelson Rodrigues e Henfil e a repetição do episódio em outros jogos fizeram com que o urubu entrasse definitivamente na cultura rubro-negra.

Desde então, a imagem do urubu passou a aparecer em bandeiras, camisas, faixas, desenhos, mascotes e diversas manifestações da torcida.

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O voo que entrou para a história

O episódio de 1969 mostra como o futebol é capaz de transformar acontecimentos aparentemente pequenos em símbolos que atravessam gerações.

Um urubu capturado no antigo lixão do Caju, levado escondido para o Maracanã e solto diante de uma multidão acabou se tornando parte da identidade de um dos clubes mais populares do Brasil.

A história também tem um lado triste, já que o primeiro animal não sobreviveu. Mas a repercussão daquele domingo foi muito maior do que os quatro torcedores poderiam imaginar.

A partir daquele momento, o que antes era uma provocação passou a ser uma marca de orgulho. O urubu deixou de ser apenas um apelido usado pelos adversários e ganhou lugar definitivo entre os grandes símbolos do Flamengo.

Mais de cinco décadas depois, basta a imagem de um urubu para que muitos torcedores reconheçam imediatamente as cores, a história e a paixão rubro-negra.

Perguntas frequentes sobre o urubu do Flamengo

Por que o urubu virou mascote do Flamengo?

O urubu virou mascote do Flamengo depois que torcedores transformaram uma provocação dos rivais em símbolo de orgulho. O episódio mais marcante aconteceu em 1º de junho de 1969, quando um urubu foi solto no Maracanã durante um clássico contra o Botafogo.

Quando o urubu foi solto no Maracanã pela primeira vez?

O episódio histórico aconteceu em 1º de junho de 1969, durante um jogo entre Flamengo e Botafogo no Maracanã. A ave foi levada ao estádio por quatro jovens torcedores e solta no gramado.

O primeiro urubu do Flamengo morreu depois do jogo?

Sim. O urubu que foi capturado pelos torcedores morreu pouco depois do episódio no Maracanã. O animal foi encontrado morto e uma avaliação veterinária apontou inanição como causa da morte.

Quem era o mascote do Flamengo antes do urubu?

Antes da consolidação do urubu, o Flamengo tinha o marinheiro Popeye como mascote, uma referência à história do clube ligada ao remo. A imagem do urubu ganhou força a partir do episódio ocorrido no Maracanã em 1969.

VEREDITO

O voo do urubu em 1969 é um dos episódios mais curiosos da história do futebol brasileiro. Uma provocação que deveria atingir os flamenguistas acabou sendo apropriada pela própria torcida e transformada em um dos símbolos mais reconhecidos do Flamengo.

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